Eu escrevi certa vez sobre o cão de rua e como eu me sentia e me enquadrava nessa teoria.
Em suma, assim como o cão de rua que fica esperando em seu concreto frio e úmido por algum carinho - ainda que sejam migalhas - de qualquer pessoa que passa por seu caminho, assim também eu me comporto e me comportei em muitas situações da minha vida. Esperando alguém que fosse me dar um pão velho, um afago no ouvido e me convidasse para entrar em sua caminhonete velha em direção ao paraíso: um lar, um coração, um afeto. Eu me comportei como um cão por diversas vezes que esperei essas atitudes de algumas pessoas que passaram pela minha vida. Digo: tanto sentimentalmente como pessoalmente, com relações humanas comuns. Na maioria das vezes, para não dizer que em quase 100% dos casos, o final da minha história como cão de rua era voltar ao concreto frio e úmido do qual que não deveria ter saído. E esperar ali, quietinho e sozinho, uma possível compaixão - dó mesmo - de qualquer um que visse um cãozinho com olhar triste querendo, em desespero, cuidados de alguém.
Hoje, entretanto, quero contar o outro lado dessa história.
Porque, sim, ainda que raros, existem finais felizes - ou mais bons do que felizes - para a nossa vida. Quando acontece o inesperado, quando o cãozinho se surpreende que existe sim alguém que não te dá pão velho e ruim, mas um pão fresco, água fresca. O afago ao pé do ouvido vai além de um simples cafuné de dó e passa ser um carinho diário e mais: quando o convite para ser cuidado por alguém se torna real. Sabe, a gente se desespera por tanta gente que para nós parece ser insubstituíveis, irreparáveis, que perdemos o foco de que a vida é muito longa para ser reduzida a poucas experiências. Que o jogo tem muitas fases para ser reduzido em apenas 2 mundos. E deixamos de acreditar que, mesmo como cães de rua - por mais que essa seja a sua condição -, a rua não é moradia eterna. Há sim bom futuro. Há sim esperança. Há sim recomeços. Há sim gente boa, que é a maioria. Há sim prazeres que precisam ainda ser desfrutados. Há sim amores em SP - em contrapartida do Criolo.
Eu poderia muito bem ter me reservado ao concreto e ter masturbado uma solidão, um desapego, uma dor infindável. Mas acontece que enquanto alguns trocam suas dádivas por pratos de lentilha, eu não entrego meus valores e nem me assento à mesa com os escravos de uma ditadura social barata e destrutiva. Ou seja, enquanto tentei encontrar eu não era achado. Mas quando eu decidi me abster, eu fui encontrado. Quando a gente entrega o nosso caminho, todo o mais - TODO O MAIS - Ele faz. Não é mandinga nem urucubaca. E muito menos alienação ou guerra de ego. É simplicidade, como Ele foi.
Hoje, o cão de rua tem moradia, alimentação, cuidado e um cantinho quentinho no coração de alguém que enxergou nele não apenas as pulgas, os maltratos e muito menos as cicatrizes que as decepções do concreto lhe proporcionou. Alguém enxergou no cãozinho um coração puro e simples que precisava mesmo era de calor.
L.

0 comentários:
Postar um comentário